23/10/2026

Mulheres negras apresentam demandas de saúde a gestores públicos no Rio 

Nessa quinta-feira, 22 de outubro, as organizações territoriais do Projeto Saúde das Mulheres Negras se reuniram no Centro Estadual de Defesa dos Direitos da Mulher (CEDIM) para apresentar um diagnóstico amplo sobre os atendimentos de saúde no Rio de Janeiro e na Baixada Fluminense às autoridades de várias cidades.  

A atividade foi conduzida por Lúcia Xavier (Coordenadora Geral de Criola), Nathalia Ribeiro (líder do Projeto Saúde das Mulheres Negras) e Rita Borret (líder do Projeto Saúde das Mulheres Negras). Entre representantes da gestão, contou ainda com a participação de Rosimery Costa dos Santos (Coordenadora Geral de Atenção à Saúde da População Negra do Ministério da Saúde) e Gabrielle Damasceno (responsável técnica pela pasta da Saúde Integral da População Negra na Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro).  

Articulação territorial e incidência política 

Os dados apresentados por Nathalia dimensionam a atuação do projeto e o trabalho de articulação realizado com os serviços públicos. Foram promovidas 422 reuniões com secretarias municipais de saúde, 243 participações em conselhos, 700 atividades de formação — que somaram 25 mil participações — e cerca de 900 atividades das redes locais.  

A iniciativa também investiu na formação de lideranças comunitárias, com a proposta de que 450 mulheres multipliquem os conhecimentos adquiridos, formando outras 50 mulheres cada. A estratégia busca ampliar a capacidade de mobilização nos territórios e fortalecer mecanismos de diálogo e intervenção junto às Unidades Básicas de Saúde (UBS).  

As ações abrangem diferentes territórios do Rio de Janeiro e da Baixada Fluminense, incluindo Nova Iguaçu, Queimados, Mesquita, Japeri, São João de Meriti e Magé, além de regiões das zonas Norte e Oeste da capital. O trabalho também alcança comunidades quilombolas e áreas rurais, onde as dificuldades de acesso aos serviços de saúde assumem características específicas.  

Mulheres negras relatam barreiras no acesso à saúde 

Durante o debate sobre os desafios enfrentados nos territórios, as representantes das organizações locais apontaram problemas recorrentes no atendimento, como dificuldades de acolhimento, demora na regulação de consultas pelo SISREG, falta de medicamentos e especialistas, rotatividade de profissionais, violência institucional e necessidade de deslocamentos para realizar exames e consultas.  

A Pastora Kátia Ezoite, liderança do Ministério IPANO e representante na apresentação dos desafios mapeados pelas lideranças de Duque de Caxias, destacou a falta de acolhimento e a necessidade de maior flexibilidade nos horários de atendimento. Para mulheres que trabalham durante o horário comercial, especialmente aquelas que exercem atividades domésticas e não dispõem de autonomia sobre a própria jornada, conseguir comparecer às consultas representa um obstáculo adicional.  

Ana Leila, liderando do Centro Social Fusão, de Mesquita, chamou a atenção para as lacunas no atendimento à população idosa. Segundo ela, ainda há dificuldades para que os municípios implementem políticas de saúde de acordo com as necessidades dessa população. A representante relatou o acompanhamento de um caso envolvendo uma mulher com mais de 70 anos, evidenciando a importância de ampliar a atenção à saúde na terceira idade. “Quando falamos da terceira idade, ignoramos casos de câncer de útero. O Governo Federal ampliou a faixa etária, mas os municípios ainda não executam a política desse modo”, afirma. 

A situação das mulheres agricultoras também foi apontada como uma preocupação. Elaine Ferreira, da Comissão Pastoral da Terra da Baixada Fluminense, relatou que, em áreas rurais de Queimados e Nova Iguaçu, o atendimento básico é deficitário e não contempla adequadamente as necessidades das mulheres em seus domicílios. Segundo ela, as lideranças têm buscado apresentar as demandas aos espaços de saúde e articulado ações com os Centros de Referência de Assistência Social (CRAS), diante de respostas institucionais que frequentemente questionam a existência de demanda suficiente.  

Elaine destacou ainda a importância de fortalecer a autonomia das lideranças e de criar espaços de escuta, como rodas de conversa, para que as políticas públicas considerem as necessidades efetivas das mulheres nos territórios.  

Em Japeri, Amanda Almeida (Instituto Mover Vidas) ressaltou a importância de estratégias de incidência construídas a partir das vozes das mulheres negras. Para ela, escutar essas mulheres é parte da garantia de direitos e permite que a atuação ultrapasse os limites das unidades de saúde, alcançando pessoas que enfrentam dificuldades para chegar aos serviços. Ela também chamou a atenção para a falta de suporte às mães atípicas e para as lacunas no atendimento à população trans.  

Leila Regina, da Casa de Cultura de São João de Meriti, relatou que a saúde das mulheres negras passou a ocupar um lugar central na instituição a partir do trabalho desenvolvido em parceria com Criola. Ela destacou que as organizações encontraram problemas semelhantes em seus diagnósticos, incluindo a naturalização da demora do SISREG e de atendimentos desumanizados, nos quais as mulheres não se sentem ouvidas nem examinadas com a devida atenção. A representante também apontou a necessidade de ampliar o debate sobre desigualdades raciais no SUS e nas organizações da sociedade civil, além de fortalecer parcerias com profissionais dos serviços públicos, incluindo processos formativos que ajudem a reconhecer e enfrentar o racismo no atendimento.  

Valdirene Couto Raimundo conta que no Quilombo Feital, localizado em Magé, a atuação do projeto contribuiu para ampliar a compreensão sobre a saúde das mulheres negras, especialmente diante dos índices de mortalidade materna e de violência obstétrica. Entre os principais obstáculos relatados estão os custos de deslocamento na Baixada Fluminense e a longa espera, em cerca de três meses, para conseguir consultas. O diálogo construído com Criola também favoreceu a aproximação com profissionais das unidades de saúde locais, incluindo equipes de enfermagem.  

Anazir Maria de Oliveira, do Grupo de Mulheres Nós na Luta e moradora de Realengo, destacou a continuidade das desigualdades sociais e políticas que afetam a saúde na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Para ela, o trabalho de Criola “trouxe uma nova visão de luta, de conquista e de responsabilidade pro nosso território”. Destacou também que a parceria contribuiu para fortalecer a mobilização comunitária e ampliar a compreensão sobre os caminhos de luta, conquista e responsabilidade coletiva na defesa dos direitos das mulheres.  

Entre os problemas comuns identificados pelas organizações estão a falta de medicamentos, a violência no atendimento, a comunicação insuficiente entre serviços e usuárias, as longas filas para consultas, a escassez de especialistas e a necessidade de realizar exames fora do bairro de residência. As participantes ressaltaram que mães solo e trabalhadoras domésticas frequentemente não conseguem se deslocar para consultas sem apoio. Também criticaram a influência de indicações políticas na organização dos serviços e a substituição frequente de médicos, que prejudica a continuidade do cuidado.  

Foto: Mariana Monteiro/Acervo CRIOLA

Ministério da Saúde destaca racismo institucional e necessidade de articulação 

Na discussão sobre os desafios da gestão pública, Rosimery Costa dos Santos e Giselle Maria, representantes do Ministério da Saúde, acompanharam os relatos e as propostas apresentadas pelas organizações territoriais.  

Rosimery ressaltou que o racismo institucional precisa ser reconhecido como um fator determinante das desigualdades em saúde nas administrações municipais. Ela destacou a necessidade de ampliar a presença das políticas públicas nos territórios e propôs fortalecer a parceria entre o Ministério da Saúde e os municípios para enfrentar as lacunas de atendimento. “O que vocês trazem, do racismo institucional como determinante na saúde em gestões municipais, precisa ser encarado”, salientou. 

A representante também lembrou que as gestões municipais têm autonomia para definir a execução das políticas, mas precisam assegurar que o acesso à saúde considere e enfrente as desigualdades existentes.  

O encontro contou ainda com representantes de diferentes áreas da gestão pública, entre eles Vitor Alves, supervisor da Atenção Primária da Secretaria de Saúde de Duque de Caxias; Luanna de Mendonça Gomes, da Secretaria de Atenção Primária à Saúde do Ministério da Saúde; Fabiana Silva, ouvidora da Defensoria Pública; e Juçara Portugal Santiago, conselheira do CEDIM.  

Luanna destacou a importância de iniciativas voltadas à saúde das mulheres, ao enfrentamento ao racismo e à redução da mortalidade materna. Também chamou a atenção para a mobilização política em defesa da saúde das mulheres negras no Rio de Janeiro e para os avanços no registro do quesito raça/cor, fundamental para identificar desigualdades e orientar políticas públicas.  

Claudia, da Gerência de Saúde da Mulher do município do Rio de Janeiro, ressaltou que espaços de diálogo como o encontro permitem identificar problemas e contribuir para a construção de políticas públicas mais adequadas às necessidades da população.  

Propostas para ampliar o acesso à atenção básica 

Na etapa dedicada à construção de mecanismos de acesso à saúde, Rita Borret, de Criola, apresentou soluções formuladas a partir das experiências das organizações territoriais. As propostas buscam aproximar os serviços públicos das mulheres, fortalecer a participação social e enfrentar barreiras institucionais que comprometem o atendimento.  

Entre as iniciativas discutidas estão a elaboração de um mapa de serviços que acolhem mulheres vítimas de violência, a articulação com CRAS e escolas e a realização de rodas de conversa sobre saúde mental, especialmente na Zona Oeste. Também foram destacadas a participação nas atividades das UBSs para incorporar a perspectiva racial às discussões sobre saúde e a capacitação de profissionais para lidar com casos de racismo vivenciados nas unidades.  

Foto: Mariana Monteiro/Acervo CRIOLA

Outra frente envolve a participação em reuniões de colegiados gestores e conselhos municipais de saúde, ampliando o controle social e a incidência das organizações nas decisões sobre políticas públicas. As propostas incluem ainda a oferta de atendimento em quilombos e espaços comunitários de Nova Iguaçu, Japeri e Magé, como estratégia para alcançar mulheres que enfrentam dificuldades de deslocamento.  

A necessidade de adaptar os horários de atendimento às realidades de grupos específicos também foi apontada, com destaque para mulheres trans e profissionais do sexo, em iniciativas desenvolvidas em Duque de Caxias e na Zona Oeste. Outras propostas incluem o cuidado integral às famílias beneficiárias do Bolsa Família, o atendimento desterritorializado para mulheres vítimas de violência e a produção de materiais para automonitoramento da saúde, com iniciativas em Duque de Caxias.  

As experiências apresentadas reforçam que ampliar o acesso à atenção básica exige não apenas a oferta de serviços, mas também mudanças na forma como as políticas públicas são organizadas e executadas. A escuta das mulheres, o reconhecimento das desigualdades raciais, o fortalecimento das lideranças comunitárias e a construção de parcerias com profissionais e gestores aparecem como elementos centrais para transformar os diagnósticos em ações concretas.  

O encontro reafirma a importância da articulação entre organizações territoriais, sociedade civil e poder público para enfrentar o racismo institucional e garantir que as mulheres negras tenham acesso a uma atenção básica acolhedora, integral e comprometida com seus direitos.


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