28/10/2026
Chacina do Alemão: um ano sem justiça e reparação
Em 28 de outubro de 2025, a “Operação Contenção” promovida pela Secretaria de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro deixou ao menos 122 pessoas mortas nos Complexos da Penha e do Alemão. A data ficou marcada na história do país por se tratar da maior chacina já promovida pelas forças do Estado, sitiando crianças, mães, trabalhadores e moradores do complexo do Alemão durante intenso período de violência armada.
Em março deste ano, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) condenou operação policial evidenciando que, longe de enfraquecer estruturalmente o crime organizado, a intervenção aprofundou o sofrimento comunitário, reforçou a desconfiança institucional e elevou padrão histórico de violência estatal a novo patamar de gravidade.
A Comissão reforça aquilo que organizações da sociedade civil vem denunciando há anos: que as mulheres negras e homens negros, jovens e crianças são os principais alvos de operações policiais no Brasil. Essas ações são marcadas por violência sexual, patrimonial, comunitária, política e a destituição de direitos em diversas esferas da vida das vítimas.
Mulheres negras carregam as principais marcas desta violência
Para Danielle Moraes, Assistente de Coordenação e Incidência Política em Criola, é preciso olhar especialmente para os desdobramentos desta violência para as mulheres negras:
“Um ano depois da maior chacina promovida pelo governo do Estado do Rio de Janeiro, ainda não temos respostas, responsabilização dos culpados, justiça ou reparação para os familiares das vítimas. Essa chacina ceifou tantas vidas, afetou tantas pessoas e famílias e deixou marcas profundas em territórios que já convivem cotidianamente com a violência do Estado. E, mais uma vez, são as mulheres, em sua maioria mulheres negras, que ficam com a responsabilidade de cuidar dos filhos, sustentar suas famílias, lidar com o luto e tentar reconstruir a vida depois de uma violência que nunca deveria ter acontecido”.
Justiça e transparência institucional ainda são desafios após um ano da ação
O movimento de mães que perderam seus filhos para a violência de Estado, em conjunto com outras organizações da sociedade civil, tem denunciado sérias falhas na condução das investigações. A lentidão dos processos e a falta de transparência dos órgãos competentes revitimizam os familiares, evidenciando a incapacidade das instituições públicas de oferecer desfechos justos. Essa omissão perpetua problemas estruturais que restringem o acesso dessas famílias a direitos fundamentais, como justiça, trabalho, saúde, educação, alimentação e lazer.
Danielle Moraes reforça que:
“Não existe democracia quando o Estado pode matar e seguir a vida como se nada tivesse acontecido. Não existe justiça quando as famílias precisam lutar até mesmo pelo direito de serem ouvidas, de conhecer a verdade e de ver os responsáveis sendo, de fato, responsabilizados. Lembrar um ano dessa chacina é reafirmar que essas vidas importam, que essas famílias têm direitos e que não vamos aceitar que o silêncio e o esquecimento sejam a resposta do Estado”.