29/01/2026

De 29 de janeiro de 2004 a 29 de janeiro de 2026: quais são os avanços e desafios na luta contra a transfobia? 

Jaqueline Gomes de Jesus, Zuri Moura e Jessica Lorrany falam sobre visibilidade, direitos e luta política 

O dia 29 de janeiro de 2004 ficou marcado na história do Brasil. Um ato nacional organizado por pessoas trans e travestis lançava a campanha “Travesti e Respeito”, no Congresso Nacional – um marco na história do movimento contra a transfobia. Desde então, alguns direitos foram garantidos, mas o Brasil continua sendo o país que mais mata pessoas trans e travestis no mundo.  

Nestes 22 anos desde a instituição do dia da Visibilidade Trans como marco de luta, quais foram os avanços e quais são os desafios na jornada da sociedade brasileira contra a transfobia? Convidados três ativistas trans negras para bater esse papo com a gente.  

Para Zuri Moura, essa data nasce como fruto de uma luta histórica protagonizada por travestis e pessoas trans, em um contexto em que estes corpos sequer eram reconhecidos enquanto sujeitos de direitos. Na sua visão,  

“Se hoje existe alguma visibilidade institucional, ela é muito recente e fruto da organização política do movimento social de pessoas trans e travestis. Dentro dessa trajetória, ao longo desses 22 anos, nós tivemos muitos avanços importantes e fundamentais, como o reconhecimento do nome social, o maior acesso a políticas públicas e o processo de construção de políticas afirmativas, como as políticas de cota nas universidades. Acho e avalio enquanto fundamentais esses avanços, pois nos permitem sermos vistas não apenas pelo cenário da dor e da violência, mas também pelas nossas potencialidades, pois os nossos corpos estão disputando um projeto futuro de sociedade”.  

Para Jaqueline Gomes, o conceito de visibilidade para a população trans precisa ser entendido a partir da sua perspectiva da positividade.  

“Nós não buscamos apenas ser visíveis. Precisamos ser vistas de forma positiva, porque nós já somos visíveis. Aqui mora o problema: nós somos visíveis de forma muito negativa e estereotipada, o que muitas vezes estimula o devassamento dos nossos corpos, fazendo com que as pessoas se considerem no direito de serem nossas donas, de definirem os nossos gêneros, de definirem como deveríamos nos apresentar, como deveríamos nos comportar e onde deveríamos estar. O Dia da Visibilidade importa para lembrar que nós não temos uma história que começa só com a pessoa trans adulta, nós somos crianças, adolescentes e temos ancestrais, como Xica Manicongo – a primeira travesti reconhecida na história no Brasil – e tantas outras que foram obrigadas a existir apenas no trabalho sexual e nos trabalhos marginalizados”.  

Jessica Lorrany lembra a importância de racializarmos este debate:  

“A maioria das pessoas trans e travestis assassinadas no país são negras, periféricas e pobres. Isso revela que a transfobia caminha junto com o racismo estrutural. Houve avanços importantes, como a retificação de nome e gênero e maior visibilidade das pautas trans, mas esse direito não chega da mesma forma para todas. Pessoas trans negras seguem sendo empurradas para a marginalização, enfrentando exclusão no mercado de trabalho, violência policial, abandono escolar e negação do direito à vida. Combater a transfobia exige também enfrentar o racismo. Não existe justiça social sem equidade racial. Garantir dignidade para pessoas trans é uma responsabilidade do Estado e de toda a sociedade”.  

Conheça e acompanhe as nossas parceiras: 

Jaqueline Gomes de Jesus 

Professora Doutora do IFRJ, foi gestora pioneira do sistema de cotas da UnB e autora de “Eu não sou uma mulher?”. Pesquisadora em saúde mental LGBTI+ e homenageada com o Diploma Bertha Lutz pelo Senado Federal. 

Siga no Instagram: @instadajaqueline 


Zuri Moura 

Ativista trans e negra, coordenadora de advocacy territorial e liderança da cena ballroom brasileira. Graduanda em Serviço Social (UFF), fundadora da Rede Trans da UFF e precursora das cotas trans no ensino superior do estado do Rio de Janeiro. 

Siga no Instagram: @zurimoura 


Jessica Lorrany 

Travesti negra periférica, empreendedora social e educadora popular, e atua no fortalecimento da autoestima e na defesa dos direitos das mulheres e de corpos dissidentes. 

Siga no Instagram: @a.diva.do.cabelo 

1