19/03/2026
O caso da Andréa Marins Dias e as mulheres negras como alvo da violência de Estado
Em entrevista ao Portal Geledés, Mônica Sacramento, coordenadora programática de Criola, aborda os impactos da violência policial sobre a vida das mulheres negras a partir dos destaques de relatório produzido pela organização
Aos 61 anos de idade, a médica Andréa Marins Dias se tornou mais uma das vítimas da violência estatal. A brutalidade dos policiais de “atirar antes e perguntar depois”, direcionada a corpos negros, é uma cena que se repete cotidianamente no Brasil e segue sendo motivo de indignação coletiva nos casos que se tornam conhecidos. Alvos diretos dessa violência e de suas múltiplas consequências, as mulheres negras se organizam para enfrentá-lá.
Na noite do dia 15 de março, Andréa Marins Dias voltava da casa dos seus pais, em Cascadura, na Zona Norte do Rio de Janeiro. No trajeto, a médica teve o carro “confundido” com o de suspeitos envolvidos em uma suposta perseguição policial na região. Os agentes que conduziam uma viatura da Polícia Militar a balearam dentro do veículo, um Corolla. Segundo matéria do jornal O Globo, um comerciante relatou ter ouvido mais de dez disparos, além do grito dos policiais, dizendo: “Não vai sair? Vai tomar. Vai morrer aí dentro”. Andréa era ginecologista e cirurgiã, especialista em casos de endometriose.
Publicado em 2024 pela organização Criola, o “Relatório Impacto da Violência Produzida pelas Polícias Brasileiras contra as Mulheres Negras Cis e Trans” analisa os impactos da violência policial sobre a vida das mulheres negras a partir de casos emblemáticos, além de formular recomendações para o fortalecimento da incidência política nacional e internacional.
O estudo apresenta os efeitos diretos dessa violência, como ofensa à honra e integridade física, violência física e psicológica, violência sexual, desigualdade no acesso ao sistema de segurança pública e justiça criminal. E também os efeitos indiretos, como os impactos da letalidade policial de homens na vida de seus familiares.Trata-se de uma sistematização das graves violações de direitos sofridas por mulheres negras no âmbito da segurança pública.
Com a intenção de elucidar como o caso de Andréa Marins Dias se insere nesse contexto, o Portal Geledés conversou com a pedagoga e doutora em educação Mônica Sacramento, coordenadora programática de Criola, organização da sociedade civil com mais de 30 anos de trajetória na defesa e promoção dos diretos das mulheres negras.
Mônica discorreu sobre a semelhança do caso recente com outros episódios simbólicos de mulheres negras assassinadas pela polícia: Claúdia Ferreira, Luana Barbosa e Kathleen Romeo. Pontuou ainda a morosidade da justiça, as múltiplas formas de violência estatal e a atuação dos movimentos de mães de vítimas.
Leia a entrevista completa.
Portal Geledés: Como Criola recebeu a notícia do assassinato da Dra. Andréa e como avalia a comoção (ou ausência de comoção) da população?
Mônica Sacramento: Criola recebe esta notícia com profunda indignação com a forma como têm sido conduzidos os procedimentos de segurança pública no Rio de Janeiro. Há tempos denunciamos um padrão histórico de discriminação e criminalização que produz violências letais contra os corpos de pessoas negras. Sobretudo, das mulheres negras afetadas pela violência policial, com a realização de abordagens policiais indevidas e discriminatórias, as quais têm infringido às normativas que regulam as abordagens policiais no país.
A população, de modo geral, segue estarrecida diante do agravamento da letalidade da política de segurança pública no estado do Rio de Janeiro. Temos vivenciado, a cada 24 horas, as notícias de ações mal conduzidas, sem a utilização dos parâmetros e protocolos já determinados pelo Supremo Tribunal Federal (STF), constatado a persistência da impunidade e da naturalização da violência como modelo da ação estatal. Como em casos anteriores, embora alguns deles tenham mobilizado a atenção pública, isto não se traduziu em celeridade nas investigações e processamento, o que produziu um retardamento na prolação de decisões judiciais sobre esses episódios.
Portal Geledés: Como o assassinato médica Andréa Marins Dias exemplifica o “Relatório Impacto da Violência Produzida pelas Polícias Brasileiras contra as Mulheres Negras Cis e Trans”, publicado pela Criola em 2024?
Mônica Sacramento: A violência cometida por policiais contra mulheres, como afirmamos neste Relatório, é uma realidade nas favelas e periferias brasileiras, abrangendo desde ameaças proferidas em abordagens policiais a episódios de execuções de mulheres durante ações policiais. Os homicídios de mulheres cis e trans cometidos por policiais são uma das principais expressões da violência policial no país. Apesar de ocorrerem menos vezes que os homicídios masculinos, esses episódios têm acontecido com frequência e têm se dado, sobretudo,nos contextos de operações policiais e de atividades policiais rotineiras.
Portal Geledés: O relatório cita casos emblemáticos de mulheres negras assassinadas por policiais: Claúdia Ferreira, Luana Barbosa e Kathleen Romeo. O que esses episódios, junto ao de Andréa Marins Dias, têm em comum?
Mônica Sacramento: Os casos são bastante representativos desse cenário, evidenciando a brutalidade e a desumanização com que corpos negros são tratados pelas forças de segurança. Cláudia foi morta durante uma operação policial, em 2014, no Morro do Congonhas, no Rio de Janeiro. Os policiais, 10 anos depois, foram absolvidos. Policiais do mesmo batalhão, 12 anos depois, são responsáveis pela morte da Dra Andreia Marins Dias. Luana Barbosa, em 2016, morta por policiais após uma abordagem na cidade de Ribeirão Preto, São Paulo, depois de recusar-se ser revistada por policiais homens. Kathleen Romeo foi morta grávida durante uma operação policial no Morro do Lins, no Rio de Janeiro, em 2021.
Registra-se, também, como uma lacuna, a existência de poucas análises e dados oficiais sobre os impactos da atuação policial na vida das mulheres negras, cis e trans, em virtude (dentre outros fatores) da maior expressão quantitativa das ações policiais realizadas contra homens, o que faz com que a violência direcionada pelas polícias às mulheres ocupe uma posição periférica nas análises sobre o tema.
Portal Geledés: O estudo destaca que,apesar da maior parte das vítimas da violência estatal ser de homens, as políticas de segurança pública atingem também as mulheres, de múltiplas formas. Pode comentar sobre essas diferentes maneiras em que as mulheres, principalmente negras, são atingidas pela violência de Estado?
Mônica Sacramento: As mulheres negras enfrentam danos interseccionais decorrentes da incidência simultânea das desigualdades de gênero, raça e classe, demarcando um processo específico de vulnerabilidade. O racismo patriarcal cisheteronormativo dispara processos de violência, potencializando assim a vulnerabilidade dessas mulheres a partir das suas existências e identidades. Assassinatos relacionados à violência perpetrada por um parceiro íntimo ou à violência baseada em gênero, honra, etnia ou identidade étnico-racial. Abortos ou mortes por negligência, maus-tratos e demais ações intencionais, seja por indivíduos ou pelo Estado. Inclui-se neste grupo as mortes relacionadas à militarização da vida e os conflitos armados entre grupos milicianos e do tráfico de drogas, além das violências sofridas por mulheres defensoras de direitos humanos e/ou parlamentares cis e trans.
Portal Geledés: Diante da análise desse cenário, podemos dizer que a justiça brasileira tem falhado na punição à agentes públicos que matam mulheres negras?
Mônica Sacramento: Apesar do esforço de familiares e sociedade civil em coletar provas e apontar inconsistências nos testemunhos policiais ouvidos nesses casos, deparamos-nos com uma atuação chanceladora das práticas policiais pelo sistema de justiça, mesmo em casos com ampla repercussão ou com provas que contestam diretamente a palavra policial. Esta chancela não se expressa apenas na escolha de não denunciar os casos, mas também na intensa morosidade a que os casos estão submetidos.
Portal Geledés: Qual a importância da atuação de movimentos de mulheres negras e organizações da sociedade civil na busca por justiça e por uma segurança pública que de fato contemple a população negra?
Mônica Sacramento: Destaco, especialmente, as mães de vítimas de violência de Estado no Brasil, que constituem grupos organizados que lutam por justiça e responsabilização pelos homicídios de seus filhos. Esses grupos, predominantemente compostos por mulheres, especialmente mães e familiares, revelam a estreita relação entre as expressões de dor, luto e lutas por justiça com as dinâmicas de gênero. Em sua maioria mulheres negras, também são vítimas reflexas e imediatas da violência de Estado.
Colocam-se no espaço cívico nacional e internacional acionando a autoridade moral atribuída às suas condições de mãe para reivindicar respostas e esclarecimentos do Estado em relação à morte de seus filhos. Elas se mobilizam em diferentes grupos, como Mães de Acari, Mães de Manguinhos, Mães de Maio, entre outros. Por esse papel, enfrentam uma série de desafios e problemas (físicos, inclusive) em função da morte de seus filhos e de suas mobilizações políticas: algumas são estigmatizadas com o rótulo de “mães de bandidos”, em uma clara tentativa de criminalização das vítimas e do movimento por responsabilização e reparação; outras são constantemente vítimas de ameaças à sua integridade física.
Reprodução: Portal Geledés