Mãe Meninazinha de Oxum

Maria do Nascimento é Iyalorixá da Sociedade Civil e Religiosa do Ilê Omolu Oxum. Nasceu, em Ramos, no Rio de Janeiro, no dia dezoito de agosto de 1964. Filha de Maria da Luz do Nascimento e Luiz Pedro do Nascimento. Neta de Davina Maria Pereira.


A importância do Ilê Omolu Oxum deve-se ao fato deste ter abrigado, após o fechamento de Mesquita, parte dos filhos-de-santo lá iniciados, sendo portanto, juntamente com a Casa de Seu Rui, as duas únicas comunidades-terreiro de candomblé que hoje dão continuidade à Casa de João Alabá.Ilê

A comunidade-terreiro Ilé Omolu Osùn instalou-se em São Matheus, em 1968, dando continuidade à Casa-Grande de Mesquita, primeira comunidade-terreiro de candomblé a fixar-se na Baixada Fluminense (1937). A Casa-Grande de Mesquita, que primeiramente funcionou na Rua Barão de São Félix, na Saúde, foi uma das primeiras comunidades-terreiro, de que se tem notícia, estabelecida na cidade do Rio de Janeiro, à época de João Alabá (pai-de-santo de Tia Ciata e Carmen do Xibuca). Sua importância deve-se ao fato de muito bem representar os vínculos criados entre líderes religiosos e tradicionais famílias baianas e cariocas, ainda no princípio do século; fator determinante para a criação de uma música urbana carioca, o samba.


Em 1988, a comunidade-terreiro Ilé Omolu Osùn constituiu-se numa sociedade civil, a Sociedade Civil Religiosa Ilé Omolu Osùn, com a finalidade de organizar um núcleo administrativo que possibilitasse a representação jurídica da comunidade-terreiro frente aos órgãos governamentais e não-governamentais.

Essa representação tem como intuito validar a implantação de projetos em prol do desenvolvimento social, cultural, econômico e político da região onde a comunidade-terreiro está instalada, bairro de São Matheus, município de São João de Meriti (a comunidade-terreiro foi uma das primeiras construções erguidas na localidade).

Sua intenção é transformar o papel meramente religioso da comunidade-terreiro em prol de uma representação mais eficaz na disseminação do acesso à (in)formação entre a população da região – tanto do terreiro quanto do entorno, populações estas que se somam.

Ao longo desse anos, a Sociedade realizou os seguintes projetos: criação de um consultório médico, que oferece os serviços de clínica geral e ortopedia gratuitos, atendendo a cerca de 10 pessoas duas vezes por semana, totalizando atendimento de 40 pacientes/mês – conta ainda com a colaboração do PU para a realização de exames complementares; consultório de psicologia, com atendimento uma vez por semana; atendimento jurídico, uma vez por semana; exibição mensal de filmes (16 mm) e vídeos – ficção e documentário – que tratam os seguintes temas: relações raciais e de gênero, sociedade e cultura afro-brasileiras, religião, meio-ambiente, etc; distribuição de cestas básicas; implantação de um núcleo de pesquisa e documentação sobre sociedade e cultura afro-brasileiras – Memorial Iyá Davina -, que abriga exposição permanente de fotografias e objetos, biblioteca e videoteca, inscrito nas leis de incentivo à cultura estadual e federal; e a realização dos seguintes cursos: curso de yorubá, artesanato (fabricação de cartões em papel vegetal), corte e costura, introdução à técnica do richilieu, culinária e, por fim, os de marcenaria e ladrilharia, bem como, culinária, dentro do Projeto de Capacitação Profissional para Jovens em Risco Social do Programa Comunidade Solidária.

Dessa forma, a Instituição firma-se hoje como um centro de capacitação social reconhecido pela (e, por isso, referência para a) comunidade.

Sobre Iyá Davina – Iyá Davina foi a primeira filha-de-santo de Procópio Xavier de Souza, mais conhecido como Procópio d’Ogum. O número de iniciadas, além da famosa feijoada anual oferecida a Ogum – patrono do terreiro -, que mais tarde ficou conhecida como “feijão do Procópio”, bastante contribuiram para o recohecimento do terreiro. Donald Pierson, cita mesmo uma festa com mais de quatrocentos espectadores no Ilê Ogunjá [cf. Pierson, Brancos e Pretos na Bahia]. Outro fator fundamental para o seu reconhecimento foi o fato de ter participado da legitimação do candomblé, durante o Estado Novo, momento de intensa perseguição às religiões afro-brasileiras, tendo seu terreiro sido invadido pelo famoso delegado de polícia Pedrito Gordo, e Procópio sido preso. Tal acontecimento – caso Pedrito – registrou o nome de Procópio na história popular baiana, chegando mesmo a fazer parte de uma letra de samba-de-roda:

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“Procópio tava na sala,
Esperando santo chegá,
Quando chegou seu Pedrito,
Procópio passa pra cá.

Galinha tem força n’asa,
O galo no esporão,
Procópio no candomblé
Pedrito no facão”.

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Caso que conferiu-lhe notórias citações em obras de ficção – Tenda dos Milagres é um bom exemplo -, quanto em produção bibliográfica científica – O candomblé da Bahia [Roger Bastide], Orixás [Pierre Verger], etc.

Davina Maria Pereira nasceu no ano de 1880 na cidade de Salvador – BA. No dia 24 de julho de 1910, foi iniciada por Procópio Xavier de Souza, Procópio d’Ogun, no Ilê Ogunjá, situado no Baixão, antigo Matatu Grande, em Salvador. Filha de Omolu e Oxalá, muda-se, ainda na década de 1910, para a cidade do Rio de Janeiro, juntamente com seu marido, Theophilo Pereira, ogã do Ilê Ogunjá. Possuíra, no bairro da Saúde, residência na qual abrigará inúmeros conterrâneos de mudança para o Rio, ficando popularmente conhecida como Consulado Baiano. Já nesta época, existia no Rio de Janeiro, um famoso terreiro de candomblé, situado na Rua Barão de São Félix, 174, dirigido pelo renomado pai-de-santo João Alabá. A este, Iyá Davina irá se ligar. Alguns historiadores dizem que tal terreiro foi fundado com a ajuda de Rodolfo Martins de Andrade, Bamboxê Obitikô. João Alabá foi iniciado na Bahia (desconhece-se em qual terreiro). Cultuava grande amizade com tradicionais sacerdotes baianos, entre estes, Joaquim Vieira da Silva, Tio Joaquim. Em sua casa foram iniciados Carmem do Xibuca e mebros de sua família, assim como da família de Tia Ciata [de sobrenome Jumbeba]. Com o falecimento de João Alabá (1924), verifica-se o fechamento da casa da Rua Barão de São Félix. Dona Pequena d’Oxaguian e seu marido Vicente Bankolê herdam os assentamentos de Alabá, e com a ajuda de Iyá Davina, criam a Sociedade Beneficiente da Santa Cruz de Nosso Senhor do Bonfim, primeiramente instalada em Bento Ribeiro, e posteriormente transferida para Mesquita, Nova Iguaçu [1931]. Com o falecimento de Tia Pequena, Iyá Davina se tornará a última Iyalorixá da Casa-Grande de Mesquita, que foi a primeira roça de candomblé a instalar-se na Baixada Fluminense.

Iyá Davina participará da fundação de inúmeros terreiros no Rio de Janeiro, entre estes: o Bate-Folha de João Lessengue, o Axé Opô Afonjá de Mãe Agripina , além de manter estreitas relações com outros terreiros estabelecidos na cidade, entre os quais citamos: o Terreiro de São Gerônimo e Santa Bárbara, da falecida Iyalorixá Senhorazinha. Fato que bem ilustra os vínculos criados entre migrantes baianos e cidadãos cariocas, determinante para a criação, preservação e manutenção de novos e velhas tradições culturais, entre estas o samba.

Após o falecimento de Iyá Davina, sua neta e herdeira espiritual, Meninazinha d’Oxum, Mãe Naná, com a ajuda dos integrantes mais velhos da Casa-Grande de Mesquita, transfere-se para a localidade da Marambaia, distrito de Tinguá, Nova Iguaçu – RJ, onde funda a Sociedade Civil e Religiosa Ilê Omolu Oxum. Por lá, o ilé egbè permanceu até a década de 70, quando transfere-se, definitivamente, para o bairro de São Matheus, em São João de Meriti – casa onde ainda hoje reside. O cargo de Iyalorixá lhe foi atribuído antes mesmo do nascimento, pelo orixá de sua avó, Omolu. Pela avó, foi preparada para substituí-la à época de seu falecimento. O que, também, lhe renderá as mais diversas citações na produção bibliográfica sobre antropologia das religiões afro-brasileiras (ver: Os Candomblés Antigos do Rio de Janeiro [Agenor Miranda], Faraimará-O Caçador traz Alegria: Mãe Stella 60 Anos de Iniciação, La Quête de L’Afrique dans le Candomblé au Brésil [Stefania Capone], etc.

Sobre o Memorial Iyá Davina – o Memorial Iyá Davina é o primeiro centro de preservação de memória no distrito de São Matheus, Município de São João de Meriti, município fluminense que concentra o maior contingente percentual da população negra do Estado do Rio de Janeiro, constituindo-se num canal de preservação e reconstrução da memória histórica das religiões afro-brasileiras, de seus personagens integrantes ou, mais especificamente, de uma parte da história da cultura e sociedade brasileiras.


Algumas considerações sobre Mãe Meninazinha d’Oxum
e sobre seus empreendimentos

“Da Bahia para o Bairro Saúde, da Saúde para a Baixada: Iyá Davina percorreu o roteiro da implantação do candomblé da Bahia em terras fluminenses. Sua neta de sangue e filha de santo Meninazinha faz da casa de São Matheus um pólo irradiador de atendimento à comunidade e de divulgação da religião dos orixás. Heranças ampliam-se, laços se multiplicam. No mundo dos homens, tradições se entrelaçam.

Omolu, Rei dos Senhores da Terra, dono da cabeça de Davina, deu o nome no dia 24 de julho de 1910 – dia em que Xangô é festejado em todos os terreiros -, na casa de Procópio de Ogunjá. Oxum, mãe benevolente, alegria do sangue das mulheres fecundas, dona da cabeça de Meninazinha, deu o nome no dia 10 de julho de 1960. Cinqüenta anos de distância nada são no tempo infinito dos orixás.

“Minha mãe quando estava grávida, já sabia que vinha uma menina que, mais cedo ou mais tarde, teria de fazer o santo para herdar o cargo da minha avó.” É pela medição dos sacerdotes e sacerdotisas que se expande o axé. A tradição oral transmite a memória do sagrado. No tempo dos homens, é preciso que haja o registro de documentos e organização de acervos para que seja facilitado o acesso dos leigos à cultura afro-brasileira. O Memorial Iyá Davina cumpre essa função de mediação entre tempos antigos e tempos de hoje, entre estudiosos de fora e gente de santo, entre terreiro e sociedade mais ampla. Assim como o Ilê Omolu Oxum assegura a manutenção das tradições, e desenvolve importante papel social em meio à comunidade”. [Monique Augras, Professora-Titular da PUC-RJ]

“Mãe Naná [Meninazinha], detentora de um axé, isto é, iyalaxé de um dos terreiros mais tradicionais do Rio de Janeiro e que por tradição é descendente de várias origens que a própria hospitalidade nagô privilegia.

Ponto de referência da aristocracia nagô dos que aqui chegaram, no Rio de Janeiro, hoje representa ainda este ponto de união, cortesia e sabedoria.

Este museu é o primeiro no Rio de Janeiro que conta um pouco da história afro-brasileira e que necessariamente, por todos os atributos desse axé, é altamente representativo.

Axé a todos os organizadores e, em especial, a Mãe Meninazinha, querida e respeitada por todos” [José Flávio Pessoa de Barros, Professor-Titular da UFRJ e da UERJ]

“A palavra “memorial” aplicada a uma personalidade eminente do universo afro-brasileira é, por si mesma, auspiciosa. Sabemos que os caminhos da memória publica ou oficial no Brasil costumam excluir as personagens de destaque das classes economicamente subalternas, mais que, no entanto podem dispor de recursos simbólicos excepcionais. O patrimônio dos cultos afro-brasileiros é um bom exemplo. Revaloriza-lo memorialisticamente é acentuar a continuidade institucional centrada na dinâmica de construção de uma identidade para o escravo e seus descendentes, esses que formaram ao longo dos séculos a base da população brasileira. Iyá Davina é, assim, ancestral, a ser devidamente cultuado”. [Muniz Sodré, Professor-Titular da UFRJ]