Criola

Destaque | Notícias - 07/jul/2021

Julho das Pretas: por um futuro sem desigualdades

Reivindicamos um novo pacto social em torno do projeto político ancestral de uma sociedade com mais responsabilidade e justiça

 

Fabiana Pinto

É pesquisadora do Instituto Marielle Franco

Lúcia Xavier

é coordenadora geral de Criola

Tauá Pires

é coordenadora de Programas na Oxfam Brasil

 

​Neste Julho das Pretas, quando celebramos o Dia Nacional de Tereza de Benguela e o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, rememoramos a diáspora negra e refletimos sobre o impacto das desigualdades na vida de mulheres negras brasileiras durante a pandemia de Covid-19. No atual contexto, as desigualdades foram escancaradas, evidenciando a desigualdade racial como uma das mais importantes estratégias de hierarquização e exploração, que levam à morte e à subjugação de grupos historicamente excluídos, como as mulheres negras cis e trans.

A primeira vítima de Covid-19 foi Cleonice Gonçalves, trabalhadora doméstica, de 63 anos, residente em Miguel Pereira, Rio de Janeiro. Cleonice percorria cerca de 120 km para chegar ao seu trabalho, uma casa no Leblon, área nobre do Rio de Janeiro. Ela adoeceu e morreu após ter contato direto com sua patroa, que retornara da Itália e havia tido resultado positivo para a Covid-19. Naquele momento, as circunstâncias da morte já indicavam os impactos que a pandemia traria num contexto tão desigual como o do Brasil.

A desigualdade na pandemia também nos tirou o menino Miguel Otávio, de apenas 5 anos, que caiu do 9º andar de um edifício de luxo em Recife, Pernambuco. Sua mãe, Mirtes Renata, também mulher negra e trabalhadora doméstica, passeava com os cachorros de sua patroa, que deixou Miguel sozinho no elevador do prédio para que ele fosse procurar sua mãe. Essa tragédia tem como precedente o fato de o trabalho doméstico ter sido incluído na lista de serviços essenciais da pandemia, mesmo após o decreto estadual que impôs quarentena rígida nos municípios da região metropolitana do Recife.

Mais recentemente, tivemos a morte de Kathlen Romeu, jovem negra de 24 anos e grávida, atingida por um tiro de fuzil durante ação policial no bairro de Lins de Vasconcelos, Rio de Janeiro. Desde junho de 2020, mesmo após o Superior Tribunal Federal restringir operações policiais em favelas do Rio, mais de 800 pessoas foram mortas na cidade em ações desse tipo, segundo dados do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos, vinculado à Universidade Federal Fluminense.

O relatório “O Vírus da Desigualdade”, da Oxfam, revela que, no mundo, as mulheres foram as que mais perderam emprego e rendadurante a pandemia e que a população negra foi a que mais se contaminou, com o maior índice de mortes devido à Covid-19. Na mesma linha, estudo do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades da FEA-USP destacou que, antes da pandemia, 33% das mulheres negras estavam abaixo da linha da pobreza. Neste ano, com o auxílio emergencial reduzido pelo governo, essa taxa subiu para 38%.

Desde o início da pandemia no Brasil, em março de 2020, a doença se alastrou e, até o momento, mais de 520 mil vidas foram perdidas. Não apenas devido à letalidade do vírus, mas principalmente pelas equivocadas decisões tomadas pelo governo, como vem sendo evidenciado pela CPI da Covid no Senado. A ação das mulheres negras cis e trans, inspirada na Carta da Marcha de Mulheres Negras de 2015 e na Carta das Mulheres Negras para o Supremo Tribunal Federal de 2020, tem sido a permanente luta reivindicatória de mobilização pela manutenção dos direitos conquistados e a ampliação de outros ainda não alcançados.

Em janeiro, a primeira pessoa a ser vacinada no Brasil foi Mônica Calazans, enfermeira do Hospital Emílio Ribas, em São Paulo. Uma justa homenagem ao trabalho de mulheres negras durante a pandemia –elas são maioria no setor de enfermagem e estão na linha de frente do combate à Covid-19. As mulheres negras também lideram mutirões de solidariedade criando tecnologias sociais em busca de sobrevivência, especialmente nas periferias e favelas.

Julho é o mês para celebrar o ativismo das mulheres negras, que impulsiona uma série de lutas e ações para combater as desigualdades. O impacto dessa atuação se dá em diferentes dimensões da sociedade, desde aquela da política institucional até a do desenvolvimento de tecnologias de comunicação em massa, de produção de rotas de sobrevivência e de promoção de saídas para as crises. Neste Julho das Pretas, reivindicamos um novo pacto social em torno do projeto político ancestral de uma sociedade com maior senso de responsabilidade, mais justiça e menos desigualdades.

 

Artigo publicado na Folha de S. Paulo

Imagem: Tomaz Silva/Ag Brasil