20/07/2026

Projeto Saúde das Mulheres Negras apresenta diagnóstico atualizado sobre saúde mental em Duque de Caxias

No último dia 3 de julho, a coalizão de organizações parceiras de Criola no Projeto Saúde das Mulheres Negras, inseridas no território de Duque de Caxias realizou, realizou seu terceiro encontro. Na ocasião, as parceiras apresentaram diagnóstico atualizado, seguido de discussão qualificada entre lideranças e profissionais de saúde.

O encontro teve início com a apresentação de dados, feita por Bete Mestra (Associação de Mulheres de Duque de Caxias) e Pastora Bina, sobre acolhimento na atenção primária. O levantamento ouviu 104 participantes distribuídas nos 4 distritos da cidade. A discussão foi precedida de uma contextualização sobre o que representa saúde mental: segundo a OMS, é “um estado de bem-estar em que a pessoa reconhece suas capacidades e contribui para a comunidade”. Fatores como qualidade de vida, relações sociais, segurança e acesso a direitos são determinantes para isso. Ao SUS, compete acolher, prevenir doenças, promover saúde da família e encaminhar para tratamento quando necessário.

O tema foi elencado a partir da observação do racismo patriarcal cisheteronormativo enfrentado pelas mulheres negras, principalmente na sobrecarga de trabalho doméstico, violência racial e de gênero, insegurança financeira e dificuldade de acesso aos serviços de saúde. São fatores como estes que aumentam a ansiedade, estresse crônico, depressão, adoecimento emocional e sofrimento psíquico.

Perguntadas sobre onde encontrar atendimento para cuidar da saúde mental, a exemplo do CAPS, 67,3% das participantes afirmaram saber onde encontrar enquanto 32,7% não sabiam onde encontrar esses serviços públicos. Entre as principais barreiras foram listadas:

  • 45,6% falta de profissionais na rede pública 
  • 27,2% falta de tempo 
  • 14,6% custos de tratamento 
  • 12,6% preconceito 

Elizabeth, do grupo de líderes do projeto na cidade, nessa situação há muitas mulheres idosas que cuidam dos filhos há 30, 40 anos e com sobrecarga emocional e ansiedade. 

Especificamente no território caxiense, elas listaram que ansiedade (42%), sobrecarga (24,7%), vulnerabilidade (18,5%) e dificuldade de acesso ao acolhimento psicológico (14,5%) foram o que mais afetou a saúde das mulheres no cotidiano. 

Entre os relatos das participantes, Maria da Conceição Clemente Carvalho – da ONG Terra dos Homens, na Mangueirinha – contou que após um diagnóstico de câncer de colo do útero, enfrentou um quadro de ansiedade e tinha preconceito em ir à psicóloga e psiquiatra, mas afirmou que agora está sendo bem acompanhada, inclusive por um neurologista.

O diagnóstico também buscou soluções possíveis, a partir das experiências locais, como ampliação do acesso psicológico gratuito, investimento em políticas voltadas para saúde mental da mulher (28,78%), além de ações que promovam geração de renda, educação, cultura, lazer e a criação de espaços coletivos para cuidado das mulheres. Entre outras possibilidades de mudar os desfechos nas trajetórias das mulheres negras, esteve também o pedido para reativação do grupo do conselho gestor nas unidades básicas de saúde no primeiro, segundo e quarto distrito e Imbariê.  

Marcia Carvalho, do Conselho de Saúde/COREN-RJ, se comprometeu em levar as propostas para o conselho, para ela “a melhora do tratamento no caso de câncer depende do bem-estar mental; as mães e avós atípicas não estão sendo ouvidas nos conselhos, na comissão de saúde da prefeitura”.  

Raquel Guimarães, psicóloga da Ipano e especialista em saúde de jovens pela UNICEF, afirmou que é preciso desconstruir a ideia de que saúde mental é “coisa de maluco”. “Quando falamos da saúde das mulheres negras, somos atravessados pelo racismo”, afirmou. Mulheres negras são as maiores vítimas da violência obstétrica, assim como as doenças crônicas: diabetes, ansiedade, hipertensão e estresse crônico. Complementou a participante ao final do debate, considerando ainda que são as mulheres negras as principais responsáveis pelo cuidado. 

1